Uma doença que não sossega – O vício das raspadinhas

O vício das raspadinhas, é uma doença que não sossega e atormenta muitas pessoas, em particular aquelas que na ilusão de alcançar prémios monetários de grande valor, com pagamento imediato e que geralmente custam valores reduzidos, por exemplo 1€.

Para compreender este problema, segue-se alguns testemunhos. Espero que com este artigo se consiga alertar as pessoas para este grande problemas social.

Rosa conta como era e era uma vontade incontrolável de raspar, raspar, raspar. Raspar sem parar. Num só dia, chegou a jogar 300 euros. Encostava-se ao balcão, raspava e suava, suava e raspava. Chegava a casa de rastos, como se tivesse sido atropelada por um camião, o corpo quase a sucumbir. Deitava-se no sofá, exausta, exaurida, por vezes chorava sem conseguir arrancar de dentro de si o que estrebuchava nas entranhas.

“É como beber sem ter sede, aquela euforia de que vai sair prémio e se não sai nesta sai naquela, se não sai naquela sai na outra… e não conseguir parar. É um vício poderoso, manhoso, desconcertante, é mais forte do que nós.”

Deixou de pagar a luz, a água, o gás, a renda de casa. Pedia dinheiro emprestado sem explicar o destino, chegou a acumular uma dívida de três mil euros. Perdeu a autoestima, deixou de se olhar ao espelho, vestia o que lhe aparecia à frente. Sair da cama para ir trabalhar passou a ser um sacrifício. “Jogava a um ponto de não ter dinheiro para o café, como é possível?”

Em dezembro de 2013, ganhou dez mil euros numa raspadinha. Depositou metade, compras aqui e ali, algumas prendas de Natal, e o vício do jogo sempre presente. Dois meses depois, os dez mil euros tinham sido gastos, nem chegaram a aquecer no banco. “Derretia o dinheiro todo. Estava a ficar descontrolada, chorava, não queria comer”, adianta. Deixou de pagar contas e raspava como se não houvesse amanhã.

“A determinada altura, pensei que tinha de parar, mas como faço isso?, perguntava-me.” Os gastos nas raspadinhas já iam em milhares de euros. Até que um dia, a filha, com os seus extratos bancários na mão, disse-lhe com todas as letras que tinha um problema e que era preciso resolvê-lo. Rosa nem pestanejou, não contestou, rendeu-se à evidência, procurou ajuda para largar o vício.

“É uma doença de sentimentos e emoções. Também sei que é um problema porque ninguém aceita que é uma doença.” Rosa não joga há quase cinco anos, frequenta um grupo de autoajuda duas vezes por semana, admite que não é fácil. “A raspadinha está exposta em todos os cantos e esquinas.” Não entra em casa de jogos, evita o café perto de casa que tem raspadinhas na montra.

Revolta, ansiedade, agressividade

Manuel está quase a chegar aos 70. Tem um longo historial de jogo, mais de 40 anos. Quando começou a frequentar as salas de bingos e os casinos, era uma loucura. Ia de táxi para chegar mais depressa e corria pela salas para ser dos primeiros a sentar-se, a jogar. “Quando casei já estava casado com o jogo. Às vezes, pergunto-me como me deixei iludir, o vício do jogo é uma doença que não tem cura”, desabafa.

Faltava dinheiro em casa, pedia a amigos e familiares sem dizer para o que era, mentiras atrás de mentiras, empréstimos ao banco. Um dia, as raspadinhas atravessaram-se no seu caminho. Hoje, contas feitas, e uma dívida de quase cinco mil euros às costas, acha que gastou meio milhão de euros no jogo. Jogador compulsivo, jogava tudo o que ganhava.

No início, ganhou 500 euros numa raspadinha. “Arrasei os 500 euros num instante, comecei a jogar compulsivamente, um descontrolo total, empréstimos ao banco, estava no fundo do poço, não podia ter dinheiro.”

Raspadinha atrás de raspadinha, raspava 20 e se nada saía, continuava, se saía, continuava, sempre assim. “Aquela adrenalina de raspar e ver se havia ou não prémio, ficar com aquela agonia que não saiu, e jogar outra vez e não conseguir parar.”

“As raspadinhas podem levar ao fundo do poço. Não se consegue parar, é como as outras adições, é como o álcool.” Manuel sentiu a vida a fugir-lhe dos pés, a desarrumar-se, a cabeça a rebentar, os pesadelos, o não querer acordar. A revolta, a ansiedade, a agressividade, os gritos em casa. “Só queria desaparecer, só pedia para não acordar mais, as dívidas. O jogo era um monstro, era o que era, um monstro.” O vício entranhado, o desassossego permanente.

Manuel começou a sentir-se angustiado, procurou ajuda especializada, anda em consultas, pediu a autoexclusão dos casinos há coisa de dois anos. “Não queria aceitar que era uma doença, mas tive de aceitar, tive de aceitar.” Anda afastado das raspadinhas há dois anos e meio. Admite que é preciso muita força de vontade, reconhece também que o vício não se vai embora, agora tem ferramentas para o controlar. “Nunca posso dizer que não vou jogar amanhã. Vivo um dia de cada vez. Hoje não joguei, amanhã não sei.”

Um mundo colorido de cartões

Em março de 2010, a lotaria instantânea assumiu uma nova identidade com a marca comercial raspadinha. Hoje, sozinha, a raspadinha representa mais de metade dos jogos da Santa Casa, 51% do total das receitas no ano passado, 1,594 mil milhões de euros arrecadados numa curva que tem subido nos últimos anos – 1,359 mil milhões de euros em 2016 e 1,487 mil milhões em 2017.

Em segundo lugar, a uma distância significativa, está o Euromilhões e o M1lhão, com 805 milhões de euros em 2018. A lotaria clássica e a lotaria popular ficam a anos-luz com, respetivamente, 46 milhões de euros e 23 milhões de euros, angariados no ano passado.

“É o jogo que está mais em alta. É um jogo atrativo e viciante”, confirma José Fernandes, que vende raspadinhas. “É um jogo com grande impacto em termos de gasto”, acrescenta.

O Vicio das raspadinhas

Pedro Hubert, psicólogo e coordenador do Instituto de Apoio ao Jogador, tem vindo a defender o jogo responsável, mais e melhor prevenção, mais cuidado com a publicidade e com a legislação, e o sistema de autoexclusão na raspadinha. O vício do jogo é um problema comportamental que altera de forma significativa os comportamentos. Trocam-se prioridades, há uma grande dificuldade em parar.

O importante, em seu entender, é perceber para que é que o jogo existe. “Dar uma consciência às pessoas de que o jogo é algo recreativo e não algo para ganhar dinheiro”, assinala, acrescentando que há “uma tendência” para “diabolizar o problema do jogo”. Mas o foco não deve estar aí e a sensibilização sobre estas questões deve incidir nas famílias, nas escolas, nos locais de jogo, na sociedade como um todo. “É importante trabalhar padrões de comportamento, o que dispara a vontade de jogar, e os mecanismos que existem à disposição. Há uma cultura, uma certa ideia de que o jogo dá muito dinheiro, mas as probabilidades não são para ganhar”.

Não se sabe quantos viciados em raspadinhas existem em concreto em Portugal e a procura de ajuda é ainda muito ténue, recente, envergonhada até. De qualquer forma, os telefonemas para a Linha de Apoio da Santa Casa, operada pelo Instituto de Apoio ao Jogador, estão a aumentar. Em 2018, registaram-se 262 chamadas que resultaram em 135 contactos para apoio psicológico. Em 2017, contaram-se 227 chamadas e 117 contactos alvo de ajuda psicológica, mais do que os 189 telefonemas e os 76 apoios psicológicos do ano anterior. Alguns serão relativos ao jogo da raspadinha.

O inquérito nacional ao consumo de substâncias psicoativas na população, dos 15 aos 74 anos, relativo aos anos de 2016 e 2017, revela que 48,1% dos portugueses costumam jogar a dinheiro – 51,1% são homens e a faixa etária com maior prevalência situa-se entre os 45 e os 54 anos, seguida da franja dos 35 aos 44 anos e dos 55 aos 64. Os dados são do SICAD – Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências.

Depressão, solidão, desespero

A dependência do jogo é uma “dependência invisível” e a adição é uma doença progressiva. Pode começar de forma recreativa e evoluir para o vício. “As causas que levam à adição ao jogo são diversas, é uma patologia multifatorial. Desde fatores genéticos, educacionais e até determinados traços da personalidade podem levar ao jogo patológico”, considera o psiquiatra Rui Correia, um dos fundadores da Associação Portuguesa de Medicina da Adição. Traços de dependência e a obsessão ajudam a desenhar o perfil psicológico de quem joga compulsivamente.

O jogo tem o poder de dominar pensamentos e atitudes. “O jogo dito saudável aparece de forma ocasional e tem caráter recreativo. O jogo patológico torna-se uma obsessão e uma prioridade para a vida do adito. Muitas vezes, descura o trabalho, a família e os amigos, mesmo causando danos graves, nomeadamente a nível financeiro”, sublinha. Há sintomas de ansiedade e de depressão e sofrimento. “Os doentes não admitem o problema devido a mecanismos psicológicos que são a negação, a minimização e a racionalização”, define Rui Correia.

A forma como se começa e como se acaba é, portanto, uma variável com múltiplas equações: personalidade, contexto sociocultural, ambiente familiar, herança genética, rede de amigos, entre outras. O jogo pode tornar-se um escape, uma fuga à realidade, uma fonte de prazer imediato, uma forma de fugir a um sofrimento psicológico. “A maior parte das vezes, o ato de jogar é escondido das pessoas mais próximas, logo vai provocando um afastamento familiar, alimentando o seu isolamento para poder ‘consumir’, iniciando-se um ciclo vicioso. Quanto mais se desconecta da ligação aos outros, mais se liga ao objeto aditivo e mais se desconecta de si e da sua própria essência e humanidade”, adianta a psicóloga clínica Joana Fonseca, do Centro de Tratamento Creta, em Lisboa.

E a dor de quem joga aumenta. “A frustração sentida é cada vez maior porque vai perdendo cada vez mais dinheiro, na ilusão de poder sempre ganhar mais. Mas este ganho nunca será suficiente. Consequentemente, instala-se de forma progressiva a depressão, levando ao desespero e à solidão.”

A vida fica virada de pernas para o ar, desgoverna-se, perdem-se amigos e familiares, os princípios e valores esvaziam-se de sentido, a parte financeira não se endireita. Os sintomas físicos não são visíveis a olho nu e gerir sentimentos e emoções torna-se uma missão quase impossível para um jogador compulsivo. “A família pode começar a notar e a questionar a irritação do familiar, os baixos níveis de tolerância à frustração quando confrontado com a realidade.”

É como uma pescadinha de rabo na boca. Jogar para fugir à realidade, para aliviar sofrimento. “A depressão, o isolamento e a solidão são, muitas vezes, a consequência e não a causa da dependência do jogo ou de qualquer outra adição, não querendo com isto dizer que a nível psicopatológico não existam já essas fragilidades. De facto, qualquer comportamento aditivo vai agravar o quadro psicopatológico já existente”, conclui Joana Fonseca.

O vício do jogo não desaparece com um estalar de dedos. A obsessão é um bicho difícil de dominar, traz ansiedade, inquietação, alterações de humor, cansaço, exaustão. É um ciclo vicioso que se repete. Raspar, raspar, raspar. Até que a alma doa. Até tentar tirar o vício do corpo.

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